Sentimental

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       Anonymous

Blablabla foda-se.

Me chamo Ana e quando eu era pequena nunca assisti a muitos contos de fadas. Acho que por isso sou assim hoje: desacreditada. Isso seria bom ou ruim? Ser desacreditada é melhor que ser iludida? Ando achando que sim. Vivemos em um deserto de almas. Um deserto que todos estão em busca da mesma coisa, de uma coisa que nós chamamos de ”amor”. Depois que cresci, comecei a assistir aos filmes infantis e “A Bela e a Fera” se tornou a minha história preferida. Lógico que eu sou a fera. Não por ser um monstro, mas sim por ser selvagem e precisar de amor para ser domada. Mesmo que eu queira que não me domem. Mas não seria contraditório está a procura de um amor quando não se quer se domada? Já que é isso que o amor faz: doma, acalma. Na minoria das vezes. Pelo menos pra mim, desculpa, nunca foi assim. Suponho que me entender não seja questão de inteligência e nem de todas aquelas frases clichês. Me entender é questão de coragem. Sim, coragem. Coragem para navegar em águas turbulentas, desacreditadas. Me sinto como um livro velho na estante rejeitado pela cor da capa que não agrada, ou pelo título que não daqueles tão atrativos. Deve está impresso na orelha dele ”Não me leia” ou que foi desacreditado pela propaganda boca a boca. Acho às vezes que a culpa é minha. Devo ter um imã que atrai todos os homens que não servem para nada. E eles estão em todos os lugares. Nos bares, nas ruas, calçadas, avenidas, aniversários infantis. Lá estão eles falando da última gatinha que comeu ou quem sabe da próxima. Que felizmente não será eu. Gosto de homem com cérebro e infelizmente eles gostam de mulher sem um. E infelizmente não posso dá esse prazer a eles. Mas onde estão mesmo aquelas pessoas interessantes, onde dá vontade de você conversar por horas a fio e nunca ir embora e dividir uma caixa de bis branco, rir, contar da sua vida. Onde estão as pessoas que façam você se sentir bem, feliz, encaixada? No Japão, Londres, Indonésia ou ao seu lado e você nunca se deu conta? A mesma pergunto faço para o amor. Aonde ele está? Ao meu lado e eu nunca me dei conta? Muitas vezes não paramos para pensar nisso. Será que o guri que eu vi na padaria terça seria o amor da minha vida se eu tivesse dando a oportunidade de nos conhecermos? Nunca vou saber. Porque as coisas infelizmente nunca voltam depois que passam. Já era. Já foi. Esse será o grande defeito? Estamos o tempo todo procurando um amor, uma pessoa especial, mas não nos damos a oportunidade para ela aparecer? Dizemos que estamos dispostos a arrumar um amor, mas no fundo não estamos. Ou queremos algo impossível, ”perfeito”, ou como o ex. Sempre estamos fechados no nosso próprio universo e muitas vezes perdemos algo incrível por isso. Navegamos apenas nas águas mais superficiais do outro, pouca vezes nos damos a oportunidade de conhecer as profundidades do interior, o que aquela pessoa tem a oferecer de melhor. Mas, apesar de todos os nossos erros, dores, quedas e falhas espero que tenhamos força pra continuar, espero que tenhamos esperança e especialmente paciência. Mesmo ela sendo amarga, os frutos serão doces. Iluminados são aqueles que não desistem na primeira queda, no primeiro fracasso e ainda tem força de lutar pra procurar e viver um novo amor. Enquanto eu estou aqui esperando alguém que me faça sentir tudo que esse maravilhoso - sim, ainda teimo em acreditar - sentimento tem a oferecer .“Desculpem, sou antiga. Gosto de andar de mãos dadas. E mais do que beijos e amassos, quero amor e continuidade.” Enquanto isso me contento com meus romances , meus escritos, minhas lembranças. E nada pior do que o conformismo. Afinal escrevo aqui como um grito, um grito no silêncio. Apesar de ser a fera só quero que me domem e me salvem do feitiço.

(Source: o-que-vi-da-vida)

"Meu nome é Caio F.
Moro no segundo andar, mas nunca encontrei você na escada.”

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia – eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas. Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como – eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto – preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio – tão cansado, tão causado – qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios – que importa? (Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio – viria? virá? – e minto não, já não preciso). Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço. Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

"
  (Caio Fernando Abreu)

(Source: cerimoniais, via desapegar-se)